Educação com Psicanalise

🚀 A Ponte para o Desejo: Como Motivar Alunos Desinteressados com Estratégias Simples que Funcionam

novembro 6, 2025 | by Antonio & Emiliana

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Introdução: O Desinteresse como Sintoma e Não como Sentença

O cenário é familiar a todo educador: rostos que se fecham, olhares dispersos, uma apatia que parece consumir a energia da sala. O desinteresse dos alunos é, talvez, o maior desafio da educação contemporânea. Muitas vezes, ele é tratado como um problema de atitude ou de disciplina, quando, na verdade, é um sintoma. Um sintoma de que algo na relação entre o sujeito (o aluno) e o objeto (o saber) está rompido.

A Pedagogia nos oferece ferramentas, mas é a Psicanálise que nos ajuda a decifrar a raiz desse sintoma: a falta de desejo. Como ensina a Psicanálise, o sujeito só se move em direção ao objeto quando há um desejo que o impulsiona. E, na escola, o professor é a ponte, o mediador, o “catalisador de desejo” que conecta o aluno à herança cultural e ao conhecimento.

Este artigo é um convite a olhar além da superfície e a adotar estratégias pedagógicas simples, mas profundamente informadas pelo entendimento da subjetividade do aluno, visando reacender a chama da curiosidade e da motivação genuína.


1. O Vínculo: O Alicerce Psicanalítico da Motivação

Antes de qualquer técnica, é preciso reconhecer: o aprendizado não é um processo puramente cognitivo; é, antes de tudo, relacional.

1.1. Além do Conteúdo: O Professor como Sujeito Suposto Saber

Na perspectiva psicanalítica, o professor ocupa, inicialmente, o lugar de “Sujeito Suposto Saber”. O aluno investe no mestre a crença de que ele detém algo de valor — o conhecimento. A motivação primária, portanto, não é pelo conteúdo em si, mas pela relação com quem o detém.

  • Estratégia Prática: Invista nos primeiros cinco minutos. Comece a aula com um breve check-in afetivo, uma pergunta que não seja sobre a matéria, mas sobre a vida, um evento atual, um interesse. Crie um campo de escuta, mesmo que breve. Acolher a subjetividade antes de cobrar a objetividade é um gesto de reconhecimento que desarma a resistência.

1.2. O Reconhecimento e a Identificação

O aluno que se sente visto e reconhecido tem a autoestima fortalecida. O professor que demonstra interesse genuíno por suas dificuldades e potências se torna um modelo de identificação positivo.

  • Estratégia Prática: Use a comunicação individualizada. Em vez de um feedback genérico, aponte um avanço específico: “Gostei da forma como você aplicou o conceito X no trabalho Y. Isso mostra um entendimento sólido.” O elogio específico direciona o investimento libidinal (a energia psíquica) para o esforço e para o processo, não apenas para o resultado.

2. Despertando a Curiosidade: Estratégias Pedagógicas Ativas

O desinteresse prospera na previsibilidade e na passividade. Para combatê-lo, a sala de aula precisa se tornar um ambiente de descoberta, onde o aluno é o protagonista da sua jornada de aprendizagem.

2.1. Inversão do Roteiro: A Pergunta Antes da Resposta

A escola tradicional muitas vezes entrega a resposta antes de o aluno sequer formular a pergunta. A verdadeira motivação surge da curiosidade e da necessidade de preencher uma lacuna.

  • Estratégia Prática: Comece o tópico lançando um problema intrigante, uma situação-limite ou uma contradição histórica. Faça com que os alunos sintam a necessidade do conteúdo para resolver o impasse. O conteúdo não é o fim, mas a ferramenta para solucionar um desafio que foi apresentado.

2.2. A Cultura do Erro e o Trabalho com o Limite

O medo do erro paralisa. O ambiente escolar deve dessacralizar o erro, tratando-o não como fracasso, mas como etapa essencial no processo de aprendizagem e de amadurecimento psíquico.

  • Estratégia Prática: Implemente “Momentos de Revisão Colaborativa” onde os alunos analisam os erros uns dos outros (anonimamente) ou os seus próprios, buscando o porquê do equívoco, e não apenas a correção. Lacan nos lembra que o limite (o “não-todo”) é estruturante para o sujeito. Ao aprender a lidar com o limite do seu conhecimento (o erro), o aluno se estrutura psiquicamente para avançar.

3. A Conexão com o Real: Dando Sentido ao Conteúdo

O desinteresse é, muitas vezes, uma consequência da sensação de irrelevância. Por que aprender isso? Se o conteúdo parece flutuar em um vácuo, sem conexão com a vida real, a motivação se esvai.

3.1. Projetos de Aplicabilidade Imediata

O aprendizado é potencializado quando o aluno percebe o valor utilitário ou social do que está sendo estudado.

  • Estratégia Prática: Substitua algumas provas por Projetos de Intervenção ou Estudos de Caso que apliquem o conhecimento em um contexto real. Se estiver ensinando Matemática, peça para criarem um orçamento de reforma; em História, peça para analisarem o cenário político local sob a lente de um evento histórico estudado. Conectar o saber ao fazer e ao ser transforma o estudo em uma atividade com propósito.

3.2. A Descoberta da Vocação

O papel do professor não é apenas transmitir, mas atuar como um “facilitador vocacional”. Mostrar como a matéria se relaciona com diversas carreiras e áreas do saber inspira o aluno a projetar seu futuro a partir do presente.

  • Estratégia Prática: Reserve 10 minutos em algumas aulas para entrevistar um profissional de uma área relacionada, mesmo que seja por vídeo. Apresente o conteúdo não como algo obrigatório, mas como um portal para possibilidades futuras.

4. Considerações Finais: A Educação como Ato de Fé e Desejo

Reverter o desinteresse exige paciência, firmeza e, acima de tudo, a convicção do professor. É preciso resistir à tentação de culpar o aluno ou a família e, em vez disso, reformular a própria prática.

A Psicanálise nos ensina que a angústia da falta (o que não se sabe) é o motor do desejo. O papel do educador, portanto, é gerenciar essa angústia de forma construtiva, criando um ambiente onde o aluno sinta que vale a pena se esforçar para preencher essa falta. A disciplina e a autoridade, na perspectiva psicanalítica, não são repressão, mas o limite necessário para que o desejo de aprender possa se estruturar. É na firmeza do professor, combinada com o afeto, que o aluno encontra a segurança para se lançar no desconhecido do aprendizado.

Neste encontro entre a razão pedagógica e o inconsciente, a do educador é o ingrediente final. A fé na potência de transformação do aluno, mesmo aquele que se mostra mais apático. É a crença inabalável no valor do conhecimento e na capacidade humana de se elevar acima da mera inércia.

Integração: A motivação genuína nasce no ponto de encontro entre a razão (a clareza pedagógica das estratégias), o inconsciente (o despertar do desejo de saber, mediado pelo vínculo) e a (a certeza do professor de que a busca pelo conhecimento é um caminho de sentido e de liberdade para o espírito humano).


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