A Sociedade do Medo: Por que a Urgência da Segurança Sufoca o Futuro da Educação?
dezembro 3, 2025 | by Antonio & Emiliana
Uma análise profunda sobre o sintoma social da violência e a negligência com a formação humana.
Recentemente, os dados da pesquisa Genial/Quaest revelaram uma radiografia inquietante da psique coletiva brasileira. A violência disparou como a principal preocupação da população, atingindo 38% em novembro, enquanto a educação — a base estruturante de qualquer nação — amarga distantes 7% na escala de prioridades.
À primeira vista, esses números parecem apenas um reflexo da realidade crua das ruas. Contudo, sob o olhar da pedagogia e da psicanálise, eles revelam algo muito mais profundo: o colapso da nossa capacidade de simbolizar o futuro.
Vivemos em uma sociedade que clama por trancas, muros e polícia, mas que esqueceu como construir as estruturas internas que impedem o ser humano de se tornar violento. Por que escolhemos remediar o sintoma (a violência) em vez de curar a doença (a falha educativa)?
Este artigo propõe um mergulho nas raízes desse fenômeno, explorando como a cultura do imediatismo e o enfraquecimento das funções parentais nos colocaram nesse ciclo de repetição traumática.
1. O Império do Imediato: O Medo como Motor Psíquico
Para entendermos por que a segurança supera a educação na preocupação popular, precisamos recorrer à psicanálise. O ser humano reage de formas diferentes ao perigo iminente e ao planejamento de longo prazo.
A violência opera no registro do Real: ela é o assalto na esquina, a notícia sangrenta, o medo físico da morte. Isso ativa nosso sistema mais primitivo de defesa. O medo é um afeto que paralisa o pensamento e exige uma resposta motora imediata: fugir ou lutar.
A educação, por outro lado, opera no registro do Simbólico. Ela é uma aposta. Ninguém vê o resultado da educação em uma semana. É um processo de construção subjetiva que leva anos.
- Segurança é vista como “sobrevivência hoje”.
- Educação é vista como “melhoria talvez amanhã”.
Numa sociedade infantilizada, regida pelo princípio do prazer imediato (ou, neste caso, pelo alívio imediato do desprazer), a capacidade de investir no futuro atrofia. Queremos a “pílula mágica” da segurança, ignorando que a violência é apenas o sintoma de uma sociedade que parou de educar.
2. A Terceirização da “Lei”: O Declínio da Família
Aqui tocamos no ponto nevrálgico da questão, um tema central em nossa abordagem pedagógica: a escola não substitui a família.
A violência urbana não nasce no vácuo; ela é, muitas vezes, o transbordamento para as ruas de uma violência doméstica silenciosa — a violência da negligência. Quando falamos de educação, a sociedade tende a olhar para o prédio da escola e para o professor. Mas a educação que previne a barbárie começa muito antes, na constituição do sujeito.
A Falência das Funções Parentais
Na psicanálise, trabalhamos com dois conceitos fundamentais que organizam o psiquismo da criança:
- A Função Materna (Cuidado e Acolhimento): Responsável por dar à criança a sensação de existir, de ser amada e de ter um lugar no mundo. Sem isso, gera-se angústia e agressividade defensiva.
- A Função Paterna (A Lei e o Limite): Não se trata apenas do pai biológico, mas da função que diz “não”. É a introdução da Lei que ensina que não podemos ter tudo, que o outro existe e deve ser respeitado.
O que vemos hoje é uma geração de “órfãos de pais vivos”. Pais que, exaustos ou omissos, não exercem a autoridade amorosa. Sem o limite (a castração simbólica) dentro de casa, a criança não internaliza a lei.
Se a lei não está inscrita no inconsciente do sujeito, a lei externa (polícia, justiça) será sempre insuficiente. O sujeito que não aprendeu a lidar com a frustração em casa tentará obter o que deseja à força na rua. É aqui que a falha educativa se transforma em estatística de segurança pública.
3. A Escola: De Templo do Saber a “Depósito” de Demandas
Com a família recuando, a escola foi sobrecarregada. Exige-se que o professor ensine matemática, mas também que ensine a criança a não bater no colega, a esperar a vez, a lidar com a raiva e a ter higiene básica.
Essa transferência de responsabilidade gerou um efeito colateral desastroso: a desvalorização simbólica da escola.
Quando a pesquisa mostra que apenas 7% se preocupam prioritariamente com a educação, isso reflete a visão utilitarista que se tem da escola hoje. Ela deixou de ser o local de formação humana (Bildung) para se tornar um local de certificação para o trabalho ou, pior, um local onde se deixam as crianças para que os pais possam trabalhar.
Se a escola perde sua autoridade simbólica, ela perde sua capacidade de transformar a sociedade. E uma escola fraca entrega jovens sem bússola moral para um mundo violento.
4. O Ciclo da Repetição: Enxugando Gelo
Ao priorizar a segurança em detrimento da educação, o Brasil entra no que Freud chamaria de compulsão à repetição. Estamos condenados a repetir o trauma porque nos recusamos a elaborá-lo.
O ciclo é vicioso:
- A violência aumenta devido à falha na formação ética e emocional dos jovens.
- A sociedade entra em pânico e exige repressão policial.
- O Estado investe em viaturas e armas, drenando recursos que poderiam ir para escolas em tempo integral ou apoio psicossocial às famílias.
- A base educacional continua precária.
- Uma nova geração sem limites e sem esperança entra na marginalidade.
- A violência aumenta novamente.
Investir apenas em segurança é como tentar baixar a febre de um paciente sem tratar a infecção. A febre (violência) vai voltar, cada vez mais alta.
5. O Caminho de Volta: Razão, Fé e Inconsciente na Educação
Como romper esse ciclo? A resposta não é simples, nem rápida, mas é a única possível: precisamos resgatar a centralidade da educação, não apenas como política pública, mas como valor familiar.
Isso exige um movimento integrado:
- Para as Famílias: Retomar a coragem de educar. Assumir a responsabilidade pela transmissão de valores, limites e afeto. Entender que o “não” dito hoje é a prevenção da violência de amanhã.
- Para a Sociedade: Compreender que a segurança pública começa na sala de aula e na mesa de jantar.
- Para o Estado: Políticas de Estado, não de governo, que blindem a educação das oscilações políticas.
Precisamos de uma educação que integre a razão (o conhecimento acadêmico), a dimensão inconsciente (o entendimento das emoções e desejos) e, por que não dizer, a fé — entendida aqui como a esperança ativa e a crença inabalável na capacidade humana de transformação.
Só teremos ruas seguras quando tivermos lares estruturados e escolas valorizadas. Até lá, continuaremos combatendo sombras enquanto a luz da educação permanece fraca.
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