Educação com Psicanalise

A Comodificação do Dever: O Vazio Simbólico no Coração da Educação

novembro 12, 2025 | by Antonio & Emiliana

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A Queda do Sentido e o Preço da Vocação

A crise do ensino em nossa civilização não é meramente didática ou orçamentária; é, acima de tudo, ética, simbólica e civilizacional. Ela se manifesta não apenas no fracasso dos índices de proficiência, mas na corrosão da própria ideia de que a educação é um ato de formação da alma e uma missão de transmissão da herança cultural.

Um sintoma funesto dessa decadência, frequentemente lido apenas sob a lente do direito trabalhista, é a transformação de deveres inerentes à arte pedagógica em serviços pagos à parte. O ato de adaptar a instrução ao aluno, especialmente àquele que porta uma deficiência ou dificuldade, não deveria ser uma atividade “extra”, mas o cerne da arte pedagógica.

A pedagogia clássica, longe de ser um molde inflexível, é a busca incessante por meios eficazes para mover o indivíduo do potencial ao ato, do estado de natureza à plenitude da virtude e do conhecimento. Adaptar a avaliação é, neste contexto, um dever profissional e moral inerente à vocação do mestre. É um reflexo da caridade aplicada à instrução: dar a cada um, não o igual, mas o necessário para o seu desenvolvimento pleno.

Quando o sistema, seja por via sindical ou judicial, transforma este dever em um item tabelado, pago à parte, ocorre a comodificação do propósito.

O olhar do professor é desviado da missão, que é intrinsecamente ética e holística, para o cálculo frio da remuneração.

O vínculo sagrado entre mestre e discípulo, fundado na autoridade moral do saber e do serviço, é substituído por um contrato de prestação de serviço atomizado e quantificável. Isto é a manifestação mais clara do vazio simbólico. A escola, que deveria ser um templo de sentido – o local onde a criança descobre seu lugar no Logos e na história – é reduzida a uma máquina de inputs e outputs, onde a única moeda corrente é o dinheiro e o único valor indisputável é o direito (individual e corporativo), e não o dever (ético e civilizacional).


Causas Psíquicas e Culturais da Decadência

O colapso desta vocação, substituída pela burocracia do “trabalho extra”, tem raízes profundas na psique e na cultura contemporâneas, dialogando com as ideias centrais da Psicanálise sobre o amparo familiar e a internalização da Lei.

1. O Triunfo do Id e o Fim da Autoridade Simbólica

A análise psicanalítica nos mostra que a formação da personalidade depende crucialmente da internalização do Superego – a voz da Lei, da Autoridade e da Tradição. É a internalização da Função Paterna, em seu sentido simbólico de corte e transmissão cultural, que permite ao indivíduo suportar a frustração e orientar-se para o longo prazo.

Na crise moderna, marcada pela licença e pelo culto ao desejo imediato (o triunfo do Id), a figura do mestre perde sua autoridade paterna e simbólica. O professor, destituído de seu papel de transmissor da Lei (moral, intelectual), não consegue mais exigir disciplina ou evocar o dever. Resta-lhe apenas a relação contratual, onde todo esforço não estritamente obrigatório deve ser remunerado.

O sentido de sacrifício e a formação da vontade, pilares da pedagogia clássica, são substituídos pela exigência compensatória. Em um ambiente onde o holding (sustentação afetiva e ambiental, conceito winnicottiano) falha na família, a escola se vê sobrecarregada, mas sem a autoridade simbólica necessária para suprir essa carência.

2. Cultura do Individualismo e Consumismo na Educação

Culturalmente, a escola cedeu à lógica do mercado e do consumidor. A criança não é mais um formando, mas um cliente (ou o filho de um cliente). O professor não é mais um mestre, mas um prestador de serviço.

Nesta lógica, o esforço para adaptar a avaliação é visto não como o cuidado essencial ao bom serviço, mas como uma extrapolação do pacote contratado. A excelência e a dedicação são transformadas em upgrades opcionais. O ideologismo contemporâneo, que fomenta a vitimização e a fragmentação identitária, apenas acelera este processo, desviando o foco da excelência comum para a reivindicação particular.

O foco passa a ser o direito do indivíduo de não ser frustrado, e não o seu dever de se esforçar e transcender. O Protagonismo Vazio, onde se cobra do aluno fragilizado uma autonomia que ele não construiu em bases afetivas sólidas, é a consequência direta dessa visão.


Propostas Realistas para a Reconstrução

A solução não reside em mais leis ou mais dinheiro, mas na restauração do sentido intrínseco da educação. A escola voltará a ser o motor da civilização quando recuperarmos três pilares:

1. Restauração da Educação Moral e Cívica (e Cristã)

É fundamental reintroduzir no cerne do currículo a filosofia moral e os fundamentos éticos da civilização ocidental. Isso deve ser feito não como proselitismo, mas como o estudo do telos (o fim, o propósito) humano, ensinando a formação da vontade e o dever. O professor precisa ser o primeiro a encarnar essa autoridade moral.

2. Retorno à Paideia (Pedagogia Clássica)

A formação docente deve abandonar o foco excessivo em técnicas vazias e na ideologização, e retornar ao estudo profundo da alma humana, da retórica, da dialética e da história. O professor precisa ser um intelectual, não um mero técnico. Ele precisa saber o que está ensinando e por que está ensinando (o sentido civilizacional da sua disciplina). A verdadeira pedagogia exige a capacidade de diagnóstico e adaptação, nascida do conhecimento profundo da matéria e do aluno.

3. Defesa Incondicional da Autoridade do Professor

A sociedade e as instituições devem dar suporte firme e inegociável à autoridade do professor em sala, desde que esta seja exercida com competência intelectual e retidão moral. A disciplina e a liberdade só podem florescer sob o guarda-chuva de uma autoridade clara, justa e respeitada. O professor precisa ser visto como o transmissor da herança e o portador da Lei, não como um funcionário que pode ser desautorizado por qualquer reclamação de cliente.

Somente quando o professor recuperar o orgulho e o sentido de sua missão – um sentido que transcende o contracheque e se enraíza na transmissão da Verdade e na caridade de formar o homem em sua plenitude – poderemos começar a reverter o processo de vazio simbólico. A adaptação da prova, como ato de cuidado, deve voltar a ser um ato de serviço, e não um serviço pago.


Integração Final

A busca por uma remuneração extra para o dever essencial de adaptar a instrução ao aluno é um sintoma triste de uma psique coletiva exaurida, onde a razão foi reduzida ao cálculo econômico, a (a crença em um telos superior) foi substituída pelo utilitarismo imediato, e o inconsciente manifesta um profundo anseio pela restauração da Lei simbólica que dá sentido ao sacrifício. Educar é, em última instância, um ato de caridade, uma aposta na alma do outro que só prospera quando o mestre encontra em si a autoridade moral para dar mais do que o contratado.

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