A Crise da Bússola: Autoridade, Afeto e o Sujeito da Educação no Século XXI
outubro 13, 2025 | by Antonio & Emiliana
Palavras-chave: Educação Familiar, Crise Educacional, Psicanálise e Pedagogia, Autoridade e Afeto, Propósito na Educação, Declínio da Função Paterna, Inconsciente na Aprendizagem.
A educação, em seu sentido mais amplo – a arte de conduzir o ser humano à sua plenitude e responsabilidade – atravessa uma das suas maiores crises de identidade. Não se trata de uma crise metodológica, que se resolveria com mais tecnologia ou currículos mais “modernos”. A crise é de fundamento, uma crise da bússola. Perdemos a referência de para onde educar e, mais grave, de quem é o sujeito que estamos educando.
A confusão contemporânea reside na diluição dos eixos estruturantes do desenvolvimento humano: a Família como o berço da lei e do afeto primário; a Escola como o espaço de transição, da cultura e da frustração civilizadora; e o Sujeito Inconsciente, que pulsa por trás de toda demanda, aprendizado ou sintoma.
Este texto propõe revisitar o cerne desses pilares, utilizando a profundidade da Psicanálise e a estrutura da Pedagogia para mapear o caminho de volta à uma educação que liberta, em vez de apenas informar.
1. O Desmonte da Autoridade e a Tragédia do “Não-Amado”
Na educação contemporânea, assistimos a um paradoxo: a busca incessante pelo afeto dos pais e educadores, em detrimento do estabelecimento da autoridade. O medo de “não ser amado” pelo filho ou aluno impede o adulto de exercer a função mais essencial da parentalidade e da docência: a imposição ética de um limite.
A Psicanálise ensina que o limite (o “Não”) é o que estrutura o sujeito. A Lei, representada classicamente pela função paterna (simbólica, não necessariamente biológica), é o que rompe o ciclo narcísico inicial da criança, abrindo espaço para o desejo e para o mundo exterior.
Quando pais e professores se tornam “amigos” no sentido de pares, o lugar da autoridade se esvazia. O adulto recua na tarefa de frustrar o imediato em nome de um bem maior, civilizatório. O resultado é a formação de um adulto que, por nunca ter sido frustrado de maneira estruturante na infância e adolescência, não sabe lidar com a perda, com a negação e com a espera. É o solo fértil para a violência, a ansiedade e a ausência de responsabilidade.
Autoridade não é Autoritarismo: É preciso distinguir: autoridade é o lugar de onde a palavra do adulto é proferida, um lugar de responsabilidade e saber ético. Autoritarismo é o uso da força desmedida, do poder pelo poder. A primeira estrutura; o segundo, apenas oprime. A crise atual não é de excesso de autoritarismo, mas de ausência de autoridade.
2. O Afeto Estruturante: Para Além do Sentimentalismo
Se a autoridade estabelece a lei, o Afeto cria o campo de segurança onde essa lei pode ser internalizada. O afeto estruturante não é o sentimentalismo fácil, a concessão ilimitada ou a superproteção. É a presença incondicional do adulto, que diz “eu te amo e, por isso, te limito”.
O afeto na educação deve ser o ambiente de sustentação para que o sujeito possa arriscar, errar e se responsabilizar. Quando uma criança (ou um aluno) sabe que, apesar de sua falha ou inadequação, o laço de amor e pertencimento está garantido, ela se sente segura para enfrentar a frustração imposta pela autoridade.
A escola, muitas vezes, falha em integrar o afeto à sua prática. Ao focar apenas no conteúdo cognitivo, negligencia o lado relacional e emocional do aprendizado, o que a Psicanálise chama de transferência. A aprendizagem, em sua essência, é um ato de desejo mediado pela relação. O aluno só aprende verdadeiramente com aquele a quem transfere o “suposto saber” – não apenas o saber curricular, mas o saber sobre a vida, sobre o ser.
3. A Escola no Labirinto: Conteúdo, Competência e o Declínio da Cultura
A escola, por sua vez, vive a tirania da Performance. Em vez de ser o local de encontro com o acervo cultural da humanidade, o espaço onde o sujeito entra em diálogo com o que há de mais profundo e belo na tradição (Filosofia, Artes, História), tornou-se uma esteira de produção de “competências” pragmáticas e imediatas.
Essa redução da escola ao pragmatismo é um empobrecimento do sujeito. A cultura – a leitura profunda, o pensamento filosófico, a experiência estética – é o que oferece os símbolos para o sujeito dar sentido ao Real, àquilo que lhe escapa (o inconsciente, a morte, o desejo). Ao retirar a profundidade e a lentidão necessárias para o contato com o saber estruturante, a escola entrega sujeitos que são tecnicamente competentes, mas existencialmente frágeis e vulneráveis à ansiedade.
A Psicanálise nos lembra que a educação é um dos ofícios impossíveis, junto com governar e analisar. É impossível porque lida com o sujeito do desejo, que é irredutível ao controle. A escola precisa acolher essa impossibilidade, tornando-se o espaço da pergunta, da dúvida, da dialética – em vez de apenas o lugar da resposta pronta.
4. O Chamado ao Propósito: A Linguagem que Liberta
Diante da crise, a chave para a nova educação não está na inovação tecnológica, mas na redescoberta do Propósito. Educar é guiar o outro para que ele descubra e realize o seu lugar no mundo, sua singularidade.
A Psicanálise nos mostra que o sintoma, a repetição e a dor são, muitas vezes, a linguagem cifrada de um desejo não escutado, de um propósito não vivido. A função da educação é, portanto, criar as condições para que o sujeito possa traduzir essa linguagem interna, inconsciente, em ação responsável no mundo.
Isso exige que a Família e a Escola operem a partir de um princípio claro: a formação para a liberdade. Mas liberdade não é ausência de limites; é a capacidade de escolher, consciente e eticamente, as restrições que nos movem em direção ao nosso propósito.
A autoridade e o afeto se unem, então, no ato de dar a palavra ao sujeito. A Psicanálise, ao oferecer a escuta, mostra o caminho para que a verdade do inconsciente venha à tona. A Pedagogia, ao oferecer o instrumental cultural, permite que essa verdade se expresse de maneira criativa e transformadora na realidade.
5. Integração: O Ato de Fé na Capacidade Humana
A crise educacional atual é, em última instância, uma crise de fé. Fé na capacidade humana de transcender o imediato, de se submeter a uma lei ética e de encontrar sentido para além do utilitarismo.
O resgate da educação passa pela integração da razão (o saber estruturado da Pedagogia), do inconsciente (a escuta do desejo e do sintoma pela Psicanálise) e de uma dimensão que transcende a ambos: a fé, entendida aqui como a aposta incondicional na dignidade e no potencial de transformação do ser.
Educar hoje é um ato de esperança radical: é fornecer o alicerce sólido da autoridade e do afeto para que o sujeito possa construir sua casa no mundo, mesmo sabendo que a vida é feita de ventos e tempestades. É transformar a dor inerente ao processo de crescimento em motor de propósito. Somente assim formaremos indivíduos capazes de construir uma sociedade mais funcional, ética e, sobretudo, livre.
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