Aprendizagem e Desejo: O que a Psicanálise Pode Ensinar à Pedagogia sobre a Motivação dos Alunos
outubro 10, 2025 | by Antonio & Emiliana
A desmotivação dos alunos é, talvez, a queixa mais universal e angustiante no ambiente escolar. Professores sentem-se esgotados ao competir com o fluxo de estímulos externos. Gestores buscam metodologias mágicas que prometem acender a chama do interesse. Famílias observam, impotentes, a resistência dos filhos ao conhecimento.
Neste cenário de “apagão” motivacional, as abordagens meramente comportamentais e pedagógicas muitas vezes falham. Elas focam no “como fazer” sem tocar no “por que não fazer”. É aqui que a Psicanálise — um saber que interroga o mal-estar na civilização e, por extensão, na educação — oferece uma luz profunda e transformadora.
Não se trata de transformar o professor em analista, mas de equipar o educador com uma escuta e um olhar capazes de ir além do sintoma de desinteresse, buscando sua causa, que reside no campo inconsciente do Desejo.
O Mito da Motivação Pronta: Por Que o Reforço Não Basta
A pedagogia tradicional, e muitas vezes o senso comum, trata a motivação como algo externo, um “combustível” que pode ser injetado por meio de recompensas, notas altas ou até mesmo punições (o avesso do reforço positivo). Mas, se a motivação fosse tão simples, bastaria prometer um celular novo a cada nota 10 para resolver a evasão escolar.
O problema é que o interesse genuíno pela aprendizagem não é uma mera “demanda” que pode ser satisfeita por um objeto. Ele é um subproduto do Desejo, e o Desejo, na leitura psicanalítica, é estruturado pela Falta.
Para o psicanalista Jacques Lacan, o ser humano é um sujeito dividido ($), marcado pela falta essencial de algo que o completaria. É essa falta que movimenta a vida e gera o Desejo. O Desejo de Saber, a pulsão de investigação que Freud já identificava na infância, nasce justamente dessa lacuna: o sujeito deseja saber algo sobre a sua origem, sobre o mundo, sobre a relação com o Outro, porque ele não está completo.
Reflexão para o Educador: Quando tentamos suturar a falta do aluno com excesso de estímulo, respostas prontas ou a promessa de felicidade imediata, estamos, ironicamente, matando o Desejo. Se o aluno já “tem tudo” (o diploma garantido, o celular na mão, o prazer fácil), por que ele iria se lançar no desprazer e no esforço da busca pelo conhecimento?
O desinteresse do aluno, o fracasso escolar, pode ser um sintoma – uma forma inconsciente de se opor a um projeto (muitas vezes, um projeto de Outro, como o desejo dos pais) ou de manifestar uma pulsão de saber aprisionada.
A Transferência: O Fio Invisível da Aprendizagem
Se a motivação não é um “botão” que se aperta, como o professor pode atuar para reavivar a chama do interesse? A resposta está na Transferência.
A transferência, conceito fundamental na psicanálise, descreve como o inconsciente do analisando influencia o estabelecimento do laço social com o analista, investindo nele (o Outro) um suposto saber e, consequentemente, afeto. Na relação educativa, essa dinâmica se manifesta de forma potente:
- O Aluno e o Afeto: O funcionamento intelectual não é dissociado do afeto. O aluno tem maior desejo de aprender com o professor de quem ele “gosta”, quando se sente acolhido e visto na escola.
- O Professor como Outro: O professor, como representante do Saber, é investido de uma autoridade que vai além do currículo. Ele é aquele que, por meio do seu próprio Desejo de Saber (que, segundo Nomine, é o que o professor transmite antes de tudo), convida o aluno a um lugar.
- Remediação e Laço: A psicanálise vê a transferência como um “remédio eficaz para a aprendizagem”, no sentido de re-mediar, ou seja, fazer uma nova mediação. É o espaço onde o aluno, mesmo que traga uma transferência “odiada” (revolta, indisciplina), pode ter esse afeto acolhido e trabalhado, em vez de rechaçado pela raiva previsível do adulto.
O professor, portanto, precisa ser flexível para ouvir, dialogar e acolher o que o aluno traz, mesmo o conflito. Não é sobre ser permissivo, mas sobre ser rigoroso com o processo de aprendizagem e, ao mesmo tempo, flexível para lidar com o sujeito que está ali, com suas defesas, medos e seu desejo inconsciente.
O Saber do Professor: O Que Transmite o Desejo?
O professor é, na escola, aquele que detém o Saber (2), o conhecimento curricular, o conteúdo. Mas, para a psicanálise, o que move a função do saber é a sua dialética com o gozo.
O verdadeiro desafio do educador é transformar o conhecimento imposto (o que o currículo demanda) em algo que o aluno possa se apropriar em uma busca desejante.
Isso exige que o professor se coloque em uma posição de falta também. O professor que se apresenta como um oráculo onisciente, que tem todas as respostas, pode paralisar o aluno. Por outro lado, o professor que demonstra a própria paixão pela busca, que se autoriza a dizer “eu não sei isso, vamos investigar juntos”, abre um espaço para que o Desejo do aluno possa surgir.
A atitude que convida ao desejo de saber envolve:
- Olhar Individualizado: “Tem que ter um olhar individual, porque se olhar igual para todo mundo não percebe certas coisas.” (Relato de educadoras em pesquisa sobre Psicanálise e Educação). Diante da diversidade, o olhar que não trata “tudo no geralzão” reconhece o aluno como um sujeito singular, e não apenas um número na estatística.
- Ouvir Mais que Falar: Em vez de apenas depositar o conteúdo (o saber como um objeto de consumo), o professor precisa ouvir o que o aluno diz – e o que ele não diz – sobre sua dificuldade, sua resistência.
- Sustentar o Imprevisível: No manejo da indisciplina ou da desmotivação, a raiva é a resposta mais fácil. O educador que se inspira na escuta psicanalítica busca não sucumbir à raiva e oferece o imprevisível: a escuta, o acolhimento, a interrupção de uma escalada de conflito que pode estar reeditando conflitos familiares inconscientes.
O Desejo do Outro: O Perigo da Alienação na Aprendizagem
Muitos casos de desmotivação ou dificuldades de aprendizagem na clínica psicanalítica revelam uma intrusão excessiva do Desejo do Outro (pais, escola, sociedade) na vida da criança ou do adolescente.
Lacan descreve a constituição do sujeito como um processo de alienação e separação:
- Alienação: Num primeiro momento, a criança está alienada ao Desejo do Outro. Ela deseja o que os pais desejam dela (ser a boa aluna, a que não dá trabalho, a que vai ser médica).
- Separação: Para se constituir como sujeito que também deseja, é preciso que ocorra uma separação do campo desse Outro.
O problema surge quando a escola, ou a família, atua de modo a não permitir a separação. A criança se torna um objeto que tem que cumprir um projeto: o diploma como troféu para os pais, a média alta como prova de que a escola é boa.
Quando o aluno se sente esmagado por expectativas que não são dele, a única forma de dizer “eu sou eu e eu também desejo” (mesmo que inconscientemente) é através da recusa do saber. O fracasso escolar, a desmotivação radical, pode ser uma tentativa desesperada de se separar e de dar lugar ao seu próprio desejo, que fica soterrado sob as demandas do Outro.
Exemplo Prático: O aluno que se sabota nas provas, que tem a “capacidade” mas não o “rendimento”, pode estar inconscientemente rejeitando o futuro brilhante que foi desenhado para ele, sem que ele fosse consultado sobre a sua própria falta, sobre o seu próprio projeto singular.
Conclusão: O Educador como Fiador do Desejo
A psicanálise nos ensina que a motivação escolar não é uma técnica pedagógica, mas um efeito colateral da relação entre o sujeito, o saber e o Outro.
Para inspirar o desejo de saber, o educador, a família e a escola precisam ser:
- Acolhedores da Falta: Entender que a falta é motriz. O papel da escola é convidar o aluno a suportar o desprazer inerente à busca, pois é no esforço que o prazer de aprender se manifesta.
- Agentes de Mediação: Utilizar a transferência como um espaço de diálogo e re-mediação, ouvindo o sintoma (a queixa, o desinteresse) como uma mensagem do inconsciente.
- Fiadores do Desejo: Ofertando possibilidades e sustentando o aluno em seu processo de separação, para que ele possa sonhar o seu próprio futuro, e não apenas o futuro que lhe foi imposto.
Ao integrar essa lente psicanalítica, a pedagogia se torna mais profunda, mais humana e, paradoxalmente, mais eficaz. Deixamos de buscar fórmulas prontas e passamos a investir no que realmente transforma: o laço e o desejo singular de cada sujeito.
E você, educador(a): como a sua escuta pode começar a desarmar o sintoma da desmotivação na sua sala de aula amanhã?
RELATED POSTS
View all