Autossabotagem nos estudos: por que alguns alunos têm dificuldade em avançar e como ajudá-los
outubro 8, 2025 | by Antonio & Emiliana
A cena é comum e angustiante: o aluno tem capacidade, recebe apoio e, ainda assim, não consegue avançar. Procrastina até o limite, estuda de forma ineficaz ou, pior, abandona a tarefa antes de começar. Quando o desempenho está consistentemente abaixo do potencial, não estamos apenas diante de falta de disciplina, mas de um mecanismo mais profundo e destrutivo: a autossabotagem escolar.
Longe de ser uma falha moral, a autossabotagem é um sintoma complexo. Ela age como um freio de mão puxado no momento exato em que a vitória ou o sucesso se torna iminente. Para compreender esse enigma, precisamos ir além da superfície e mergulhar nas águas da psicanálise aplicada na escola, que nos oferece um olhar mais humano e menos culpabilizante sobre as dificuldades de aprendizagem.
O Inconsciente em Sala de Aula: O Que Realmente Impede o Avanço?
Na perspectiva psicanalítica, o comportamento de autossabotagem não é um ato de rebeldia consciente, mas sim a expressão de conflitos internos, medos e crenças limitantes enraizados no inconsciente. O que a criança ou o adolescente faz (procrastinar, perder o material, “dar branco” na prova) é apenas a ponta de um iceberg emocional.
1. O Medo Inconsciente do Sucesso (E do Fracasso)
Muitas vezes, a dificuldade não é chegar lá, mas sim o que virá depois. O sucesso traz consigo a expectativa de manutenção do desempenho e, por vezes, a exigência de excelência por parte dos pais, da escola e, principalmente, do próprio sujeito.
- O peso da Expectativa: Para o aluno, o sucesso pode significar o fim da “liberdade” de errar. Se ele tira nota máxima em Matemática, a próxima prova terá a régua muito mais alta. A autossabotagem surge, paradoxalmente, como uma forma de proteção contra essa pressão esmagadora.
- A “Culpa” de Ultrapassar: Em dinâmicas familiares complexas, o sucesso do filho pode, inconscientemente, “ameaçar” ou “ofuscar” a realização dos pais ou de irmãos. O aluno, por lealdade ou medo de se isolar, pode frear seu próprio brilho.
2. A Necessidade de Punição e a Culpa Inconsciente
Freud nos ensinou que o Supereu (a instância psíquica que representa a moral, as proibições e a consciência) pode se tornar um tirano interno. Se o aluno carrega uma culpa inconsciente (que pode ser vaga, oriunda de proibições antigas, ou real, ligada a sentimentos de raiva ou rivalidade), ele pode sentir a necessidade de ser punido.
- O Fracasso como Auto-Punição: O mau desempenho ou a dificuldade em avançar torna-se a pena imposta pelo próprio sujeito. “Eu mereço falhar” é o que ressoa no silêncio da mente, manifestando-se como desinteresse ou incapacidade de focar.
3. A Autossabotagem como Pedido de Ajuda (e Atenção)
Em um mundo onde o desempenho é valorizado acima de tudo, o problema pode ser a única linguagem que o jovem sente ter para ser visto.
- Ser Visto na Falha: Se a atenção familiar e escolar só se volta para ele quando há um problema (notas baixas, indisciplina), a autossabotagem se torna uma estratégia inconsciente de vínculo. “Se eu for bem, ninguém me nota; se eu falhar, todos se preocupam comigo.” A dificuldade vira, então, um elo de ligação.
O Papel da Família e da Escola: Do Julgamento ao Acolhimento
A abordagem tradicional foca em “mudar o comportamento” – punir a procrastinação, impor horários. A abordagem psicanalítica, no entanto, propõe mudar o olhar.
Para os Pais: Ajudar a Lidar com o Desejo e o Vazio
A principal contribuição da família é desvincular o valor do filho de seu desempenho escolar.
- Atenção Não Condicional: Ofereça tempo de qualidade e atenção em momentos que não estejam ligados aos estudos. O foco deve ser no ser, e não no fazer.
- Ressignificar o Erro: O erro deve ser tratado como parte do processo, e não como evidência de incapacidade. Frases como “Você é inteligente, por que não se esforça?” apenas reforçam a culpa e a pressão. Troque por: “O que podemos aprender com esta dificuldade? Estamos aqui para apoiar seu esforço, não apenas seu resultado.”
- Analisar a Projeção: Os pais devem se perguntar se a exigência escolar do filho não está, na verdade, projetando seus próprios sonhos não realizados ou seus medos de fracasso.
Para os Professores: O Educador como Agente de Sentido
O educador, ao compreender a autossabotagem, pode transformar a sala de aula em um ambiente mais seguro e acolhedor.
- Do Sintoma à Causa: Olhe além do aluno “preguiçoso” ou “desinteressado”. Onde está o medo? O que ele tenta evitar? A escuta pedagógica, inspirada na psicanálise, não julga o mau desempenho, mas tenta dar sentido a ele.
- Criar Pontes Afetivas: Um vínculo positivo com o professor pode ser o fator de proteção que o aluno precisa. Muitas vezes, o esforço vem menos pela matéria e mais pelo desejo de agradar e se conectar com uma figura de autoridade que confia nele.
- Valorizar o Processo, Não Apenas o Produto: Use avaliações formativas que foquem no desenvolvimento das habilidades, e não apenas na nota final. Isso tira o foco da “perfeição” e incentiva a persistência.
Caminhos de Saída: Do Conflito ao Desenvolvimento
Ajudar um aluno a superar a autossabotagem é um trabalho que exige paciência, empatia e, frequentemente, auxílio profissional.
1. A Importância da Psicoterapia (ou Análise)
Para o adolescente que sistematicamente freia seu próprio avanço, a análise pessoal é o caminho mais eficaz. No setting terapêutico, ele pode:
- Identificar a Crença Limitante: Trazer à consciência as frases internas do tipo “Eu não sou bom o suficiente” ou “O sucesso é perigoso”.
- Elaborar a Culpa: Entender de onde vêm os sentimentos de culpa e necessidade de punição, liberando a energia psíquica antes presa no conflito para o investimento nos estudos.
2. Estratégias Práticas (Com Significado)
Enquanto a análise avança, algumas táticas podem ser aplicadas:
- Micro-Metas: Quebrar grandes tarefas em passos minúsculos e gratificantes. A autossabotagem atua na “visão geral” assustadora. O foco no “próximo passo” diminui a ansiedade de performance.
- O “Dia Zero”: Sugerir ao aluno que ele comece a tarefa sem a pressão do resultado, chamando o tempo de estudo de “tempo de exploração” ou “tempo zero”. A ideia é quebrar a resistência inicial de começar.
Conclusão: O Sentido de Aprender e a Liberdade de Ser
A autossabotagem nos estudos nos lembra que o aprendizado é, antes de tudo, um ato de desejo. Não basta ter a capacidade; é preciso ter a liberdade interna para desejar e realizar.
O papel da Educação Familiar e Escolar, inspirada pela Pedagogia Psicanalítica, não é apenas transmitir conteúdo, mas ajudar o aluno a desatar os nós de sua própria história que o impedem de avançar. Ao acolher o medo por trás do sintoma, transformamos a luta contra si mesmo em um caminho de autoconhecimento.
Que possamos olhar para as dificuldades de nossos jovens não como falhas a serem corrigidas, mas como convites a uma escuta mais profunda, abrindo caminho para que eles experimentem o prazer genuíno de aprender e a liberdade de alcançar seu máximo potencial.
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