Educação com Psicanalise

Como Estabelecer Limites Sem Culpa: Um Olhar Psicanalítico Sobre a Relação Entre Pais e Filhos

outubro 5, 2025 | by Antonio & Emiliana

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A tarefa de educar é, inevitavelmente, uma jornada repleta de paradoxos. Amamos incondicionalmente, desejamos a felicidade e a liberdade dos nossos filhos, mas, ao mesmo tempo, sabemos que a vida exige estrutura, regras e, acima de tudo, limites. É nesse ponto que a maioria dos pais e mães tropeça: como dizer “não” sem sentir aquela pontada de culpa que corrói a autoridade?

Muitas vezes, confundimos o amor com a ausência de frustração. Nosso medo de repetir erros de gerações passadas, ou a simples exaustão da rotina, nos leva a flexibilizar demais ou a recuar na hora de sustentar uma posição. O resultado é um ciclo vicioso: a criança testando a cada momento, e os pais oscilando entre a permissividade e a explosão de raiva.

É aqui que a psicanálise oferece uma lente poderosa para enxergar o problema não apenas como uma questão de disciplina, mas como uma peça fundamental na construção psíquica da criança e na autoridade parental saudável.

O Limite Como Estrutura Psíquica, Não Punição

Na perspectiva psicanalítica, o limite não é um ato de maldade ou punição; é um ato de amor estruturante. O “não” que vem dos pais é o que introduz a criança no Princípio de Realidade.

Do Princípio do Prazer ao Princípio de Realidade

Recorrendo a Freud, o bebê vive inicialmente sob o Princípio do Prazer, onde todas as necessidades (fome, conforto, atenção) devem ser satisfeitas imediatamente. O mundo é, para ele, uma extensão de seus desejos.

O papel fundamental dos pais é, suave e gradualmente, apresentar a ele o Princípio de Realidade. Este princípio ensina que:

  1. Nem todos os desejos podem ser atendidos imediatamente.
  2. Existem outras pessoas e as necessidades delas também importam.
  3. O mundo tem regras e elas precisam ser respeitadas para conviver.

O limite, portanto, é a fronteira que permite à criança diferenciar-se do outro, desenvolver a tolerância à frustração e, crucialmente, construir seu próprio Eu (Ego) forte e capaz de lidar com a complexidade do mundo. Uma criança sem limites claros fica à deriva, sem saber onde ela termina e o outro começa, o que gera insegurança e ansiedade, e não liberdade.

O Triângulo Parental e a Função Paterna

O estabelecimento de limites é profundamente ligado à função simbólica dos pais.

A Função Materna (ou de quem cuida primariamente) é historicamente associada à nutrição, ao acolhimento e à satisfação inicial. É o espaço do afeto e da segurança.

A Função Paterna (ou de quem representa a Lei) é o que, simbolicamente, introduz a regra. É a figura que “separa” a criança da simbiose total com a mãe e aponta para o mundo exterior. Esta função não é biológica, mas sim simbólica: qualquer cuidador (mãe, pai, avó) pode exercer esta função de Lei e Ordem.

Quando os pais hesitam em estabelecer limites (a função paterna), ou quando há uma falha na parceria parental onde um desautoriza o outro, a criança percebe a fragilidade da Lei e assume, inconscientemente, uma posição de “tirano”, tentando preencher o vazio de autoridade. Isso a sobrecarrega psiquicamente, pois ela ainda não tem estrutura para ser o centro organizador da família.

A Culpa: O Impedimento do “Não”

A culpa é o maior inimigo da autoridade parental saudável. Mas de onde ela vem?

A Culpa do Desejo: O Medo de Frustrar

Muitos pais carregam uma culpa inconsciente relacionada aos seus próprios desejos e frustrações de infância. Ao ver o filho frustrado, o pai ou a mãe revivem a dor do seu próprio “não” não digerido. O limite do filho, nesse caso, é sentido como o próprio limite não superado do adulto.

Para evitar essa dor projetada, o adulto cede, comprando a paz imediata ao custo da estrutura a longo prazo. Essa cessão não é amor, é uma forma de reparação de um passado que não é o do filho.

A Culpa da Ausência: Compensação Material

Na sociedade moderna, onde o tempo é escasso e a ausência física é comum (devido ao trabalho excessivo, por exemplo), muitos pais usam a permissividade ou a compensação material como um atestado de perdão pela falta de tempo. “Eu não estou presente, então eu não posso frustrá-lo”.

Essa dinâmica é perigosa. O limite e a presença de qualidade valem mais do que qualquer presente. A criança precisa da presença do corpo e da regra, e não apenas da satisfação material.

5 Passos para Estabelecer Limites com Firmeza e Afeto (e Sem Culpa)

Para que o limite seja eficaz e não traumático, ele precisa ser dado de um lugar de convicção e calma, e não de raiva ou de desespero.

1. Diferencie Necessidade de Desejo:

A criança tem a necessidade de ser alimentada (limite é hora da refeição), mas tem o desejo de comer apenas fast-food e na frente da TV. O papel dos pais é garantir a necessidade e negociar ou negar o desejo. Deixe claro o que é inegociável (segurança, respeito, saúde) e o que pode ser flexibilizado (cor da roupa, ordem de leitura).

2. Aja Pelo Afeto Genuíno, Não Pela Raiva:

O limite eficaz é dado com voz firme, mas calma. Se você cede e depois explode, a criança aprende que o limite só é real quando você está irritado. O psicanalista Donald Winnicott falava sobre a importância do “ambiente suficientemente bom”. Este ambiente não é perfeito, mas é capaz de frustrar de maneira tolerável, sustentando a regra sem perder a conexão afetiva.

3. O Limite Deve Ser Uma Consequência, Não Uma Ameaça Vazia:

Ameaças como “Se você fizer de novo, não vai ter mais aniversário!” perdem a credibilidade. O limite deve ter uma consequência imediata e proporcional ao ato. Se o brinquedo é jogado com raiva, ele é retirado por um tempo determinado. A criança conecta a ação à reação, internalizando a Lei.

4. A Posição Parental Precisa de Unidade:

O famoso “casal parental” precisa estar alinhado. Se o pai diz “não” e a mãe diz “sim”, a criança descobre a “brecha na Lei” e perde a referência. O limite falha não pelo conteúdo, mas pela incoerência da fonte. Os pais precisam ser uma frente unida perante a regra, e debater as divergências em privado.

5. Permita a Expressão da Raiva (Sem Cedê-la):

Quando você diz “não”, é natural que a criança sinta raiva, chore ou bata o pé. Seu papel não é eliminar essa emoção, mas sim acolhê-la e nomeá-la, enquanto sustenta o limite. “Eu sei que você está muito bravo porque não pode comer o doce agora. É difícil esperar. Mas a regra é: depois do almoço.” Isso ensina que a emoção é válida, mas a regra permanece, promovendo a regulação emocional.

Conclusão: O Limite Liberta

O maior legado que um pai e uma mãe podem deixar não é a ausência de dor, mas a capacidade de lidar com ela. Estabelecer limites com firmeza e afeto é o caminho para construir seres humanos autônomos, capazes de respeitar o outro e de se respeitar.

A psicanálise nos lembra: ao sustentar o limite, você não está sendo mau; você está oferecendo o suporte que a psique do seu filho precisa para se erguer. Autoridade parental saudável é a arte de ser forte e carinhoso ao mesmo tempo. É a prova de que o amor verdadeiro não é permissivo, mas sim estruturante.

Pare de se culpar por educar. Sustente o “não” com a certeza de que ele é, paradoxalmente, a maior afirmação do seu amor.

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