Como lidar com a ansiedade escolar: dicas práticas para professores e pais
outubro 28, 2025 | by Antonio & Emiliana
O Drama Humano na Sala de Aula: Ansiedade Escolar, Psicanálise e a Busca pelo Sentido no Aprender
A ansiedade escolar é mais do que uma queixa comportamental; é um sintoma complexo que se manifesta na fronteira entre o sujeito, a família e a instituição de ensino. Para pais e educadores que buscam uma intervenção que vá além da superfície, é imperativo lançar mão de ferramentas conceituais que desvendem as forças internas que habitam o desejo de aprender.
Neste artigo, propomos um mergulho na Psicanálise — a escola de pensamento que oferece uma das mais profundas chaves para entender a alma humana — para iluminar as dinâmicas afetivas e simbólicas que transformam a sala de aula e o lar em palcos de um drama psíquico estrutural.
I. O Motor Silencioso da Vida Psíquica: Pulsão, Desejo e Gozo
A Psicanálise nos ensina que a vida mental é incessante. Somos movidos por energias que buscam expressão e satisfação. Compreender as três forças centrais a seguir é o alicerce para decifrar a resistência e a ansiedade na educação:
1. A Pulsão: A Força Bruta e Anônima
A pulsão é a energia psíquica que brota do corpo e exige um trabalho constante do aparelho mental. Diferente do instinto (que é fixo e busca um objeto determinado), a pulsão é plástica; ela pode ser satisfeita por diversos caminhos. Na escola, a pulsão se manifesta como a energia vital: a curiosidade avassaladora, a necessidade de movimento, a energia desmedida para o esporte ou, quando reprimida, a apatia e o tédio. Ela é o motor da ação, mas ainda não está humanizada pela linguagem.
2. O Desejo: O Motor Simbólico da Falta
O desejo, em contraste com a pulsão, não busca a mera satisfação biológica; ele surge da falta. Ele é mediado pela linguagem e pela cultura. O desejo não é o objeto em si, mas a busca incessante por algo perdido, que nos constitui como sujeitos. Na aprendizagem, é o desejo que mantém o aluno engajado; é o que o move a buscar o “saber-a-mais”.
Nota Conceitual: O desejo do sujeito (o aluno) está sempre ligado ao Desejo do Outro (o professor, o pai). A pergunta inconsciente é: “O que o Outro deseja que eu seja ou aprenda?” A resposta a essa pergunta é decisiva na formação do aluno.
3. O Gozo: O Excesso que Cega e Repete
O gozo é a satisfação que ultrapassa o limite do prazer, tornando-se uma experiência paradoxal e, muitas vezes, ligada à dor e à repetição estéril. É o excesso. Manifesta-se na autossabotagem, na procrastinação destrutiva e na insistência em padrões que causam sofrimento. O gozo é a expressão da Pulsão de Morte (não no sentido literal, mas como a tendência a retornar ao inanimado, à inércia ou à repetição estéril), que se opõe à Pulsão de Vida (Eros, que constrói laços e busca o novo). A ansiedade que paralisa é, muitas vezes, uma manifestação do gozo, um excesso de sofrimento que o sujeito insiste em experimentar.
II. O Preço da Civilização: Recalcamento e o Sintoma Escolar
Para que a vida em sociedade seja possível, a pulsão precisa ser “domesticada” pela cultura e pela lei – o Interdito.
Recalcamento: A Gênese do Sintoma
O Recalcamento é o mecanismo fundamental de defesa que mantém na esfera do inconsciente ideias, afetos ou lembranças insuportáveis ou incompatíveis com as exigências da realidade (o Supereu). O recalque não elimina a pulsão ou o afeto; ele apenas os força a retornar de forma desfigurada, como um lapso, um sonho ou, notavelmente, um sintoma.
A ansiedade escolar é o sintoma por excelência: o retorno (disfarçado) de um conteúdo recalcado. Pode ser o medo de não corresponder ao Ideal do Eu (a imagem de perfeição estabelecida a partir das exigências parentais e sociais), agressividade não expressa contra a autoridade, ou o receio de fracassar e perder o amor do Outro. O sintoma é, paradoxalmente, a tentativa mais bem-sucedida do inconsciente de lidar com o que foi proibido.
III. O Palco da Educação: Afeto e Símbolo em Casa e na Escola
O processo educativo é o grande articulador entre o afetivo (pulsão e desejo) e o simbólico (linguagem e lei).
A Família: A Origem do Desejo e do Interdito
- O Desejo Parental e o Ideal do Eu: O desejo dos pais em relação ao filho (que se torna um Ideal do Eu na criança) é o primeiro motor simbólico. Quando este desejo se torna uma exigência excessiva (gozo), gera-se a ansiedade de desempenho. A criança sente que precisa ser “perfeita” para ser amada, e o fracasso (a falta) é intolerável.
- A Função Paterna e o Limite: A figura da lei — o Interdito — é crucial. É o que estabelece o limite (o “Não”) e ensina a lidar com a frustração. Uma falha no interdito parental pode resultar em um adulto que resiste à autoridade e tem dificuldade em aceitar que nem todo desejo pode ser imediatamente satisfeito, o que se traduz em resistência à aprendizagem escolar.
A Escola: O Campo da Transferência e do Saber
- Transferência Professor-Aluno: A sala de aula é um campo de Transferência. O aluno, inconscientemente, revive com o professor figuras primárias de autoridade. A resistência a um conteúdo ou a apatia podem ser uma resistência não ao saber, mas à figura do professor, revivendo uma dinâmica inconsciente com os pais ou responsáveis.
- O Narcisismo Pedagógico: O professor precisa estar alerta ao seu próprio narcisismo. Se a sua satisfação pessoal (seu gozo) depender exclusivamente do sucesso do aluno, ele impõe uma pressão invisível, exigindo que o aluno realize o seu desejo, o que pode sufocar o desejo próprio do aluno de aprender.
- O Saber como Símbolo: A escola deve oferecer o saber como um objeto de desejo, capaz de simbolizar a falta e a busca. O símbolo (a palavra, o conceito) é a ferramenta que permite ao aluno mediar a pulsão, transformando a energia bruta e caótica em curiosidade, pesquisa e construção de conhecimento.
IV. Psicanálise, Educação e a Questão da Fé: O Sentido que Sustenta
O campo da educação, iluminado pela psicanálise, sempre desemboca na questão do sentido. A fé, em sua profundidade filosófica e existencial, oferece uma dimensão que dialoga com os conceitos psicanalíticos.
A Psicanálise trata da falta estrutural do ser humano (o desejo como falta insaciável), enquanto a fé (em muitas tradições) aponta para uma promessa de Plenitude e um sentido que transcende o imediatismo do gozo. A fé, como um discurso simbólico abrangente, pode oferecer um enquadre ético e de propósito que ajuda o sujeito a sublimar a pulsão de morte e a direcionar a pulsão de vida para a construção de laços significativos (comunidade) e projetos construtivos (vocação).
Não se trata de explicar a fé pela neurose, mas de reconhecer que ambas as esferas lidam com o Inassimilável – o que está além da razão e do controle. A educação, ao dialogar com a fé, pode oferecer ao aluno um horizonte de sentido que amortece o peso da exigência social e o terror do vazio existencial, sustentando o desejo de aprender mesmo diante da angústia.
V. Práticas Estruturantes para Professores e Pais
A intervenção eficaz passa por traduzir o sintoma (a ansiedade) e o excesso (o gozo) em palavras e limites (símbolo e interdito).
Para o Professor (O Agente do Símbolo):
- Interprete a Resistência, Não a Punição: O mau comportamento é uma fala que o aluno não consegue simbolizar. Pergunte: “O que a minha autoridade representa para este aluno? O que ele está repetindo aqui?”
- Acolha a Transferência, Sem Gozar Dela: Reconheça o lugar afetivo que o aluno lhe confere, mas mantenha-se na função de agente da lei e do saber, sem cair na tentação narcísica de ser o “amigo” ou o “salvador”.
- Ressignifique o Erro: O erro é a falta (parte do processo de busca), não o fracasso total (o gozo destrutivo). Simbolizar o erro é combater o perfeccionismo ansioso que o Ideal do Eu impõe.
Para os Pais (Os Garantes do Interdito):
- Diferencie Desejo Próprio e Exigência do Filho: Examine se a pressão de desempenho reflete o desejo de seu filho em relação ao saber, ou a exigência inconsciente do seu próprio Ideal. Reduza a pressão de gozo.
- Restaure o Interdito com Afeto: Limite (o Interdito) é sinônimo de segurança. Estruturar a rotina, colocar limites no uso de telas e manter a palavra são formas de exercer o Interdito que estruturam o psiquismo, ajudando a criança a lidar com a frustração.
- Nomeie o Afeto: Ajude a criança a colocar a ansiedade em palavras. “Você está sentindo um medo grande dessa prova, não é?” Nomear tira o afeto da esfera do bruto (pulsão) e o insere no mundo do símbolo (linguagem), possibilitando a elaboração psíquica.
Conclusão: A Ética do Desejo
Lidar com a ansiedade escolar é um convite a reconhecer o drama humano que se desenrola na educação: a eterna luta entre a força crua da pulsão, a busca infinita do desejo e a ameaça paralisante do gozo. A ética da educação reside em ajudar o sujeito a transformar a pulsão em sublimação (o caminho da arte, da pesquisa e da construção), a lidar com a falta (o Desejo) sem se deixar consumir pelo excesso (o Gozo), e a sustentar a vida com sentido.
O trabalho educativo, familiar ou escolar, é o de oferecer um enquadre simbólico — uma Palavra que organiza, um Limite que protege e uma Cultura que eleva — para que o indivíduo possa integrar sua razão, sua fé e seu inconsciente, e encontrar, no saber, a sua vocação.
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