Educação com Psicanalise

Disciplina Sem Autoritarismo: A Relação Professor-Aluno Sob Uma Nova Perspectiva

novembro 21, 2025 | by Antonio & Emiliana

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A Raiz da Ordem: Diferenciando Autoridade de Autoritarismo

A questão da disciplina em sala de aula é um dos maiores desafios enfrentados pelos educadores. Frequentemente, a busca por ordem e silêncio se confunde com a necessidade de controle, levando muitos professores a oscilarem entre a permissividade esmagadora e o autoritarismo paralisante. No entanto, a verdadeira eficácia pedagógica reside na capacidade de exercer a autoridade sem cair na armadilha do autoritarismo. Esta distinção, essencial, é o pilar de uma educação que visa formar sujeitos livres, responsáveis e autônomos.

O autoritarismo é a manifestação de um poder imposto, que silencia e quebra o vínculo. É o exercício de uma força baseada na hierarquia pura, onde o professor se posiciona como dono da verdade e da regra, sem espaço para a escuta, o diálogo ou a consideração do outro. Sua base é o medo, e seu resultado é a submissão temporária, que frequentemente se transforma em resistência velada ou aberta, minando a verdadeira motivação para aprender.

A autoridade, por outro lado, é um poder construído, uma capacidade de influenciar e inspirar que emana do saber, da moral e do respeito mútuo. A autoridade legítima não precisa gritar ou ameaçar; ela é reconhecida pelo aluno porque está a serviço de algo maior: a aprendizagem, o desenvolvimento e a ética do convívio. É um convite à ordem que leva à autodisciplina, e não uma imposição de fora para dentro.

O Olhar da Psicanálise: Vínculo e Transferência na Sala de Aula

Para a Psicanálise, a sala de aula não é apenas um espaço físico; é um complexo campo de relações humanas, permeado por afetos, expectativas e fantasias inconscientes. A dinâmica da transferência, um conceito central na obra de Freud, revela a profundidade dessa relação.

O aluno, inconscientemente, transfere para o professor figuras primárias de sua vida – pai, mãe, ou outros cuidadores. Isso significa que a maneira como o professor é percebido e como suas regras são assimiladas está profundamente ligada às experiências do aluno com a autoridade familiar.

  • O professor como mediador simbólico: Um professor que exerce a autoridade de forma construtiva e amorosa atua como um mediador do mundo simbólico. Ele estabelece limites que, embora gerem frustração (necessária para o amadurecimento), também oferecem segurança e estrutura.
  • A tentação do abuso de poder: A Psicanálise alerta para o risco da tentação narcísica do educador. O poder que o professor detém – o poder de aprovar, de influenciar, de ser o espelho da criança – é imenso. O autoritarismo é, muitas vezes, uma defesa, uma manifestação da insegurança do próprio professor ou a repetição de padrões de abuso de poder internalizados. Um professor que reconhece suas próprias neuroses e limites tem muito mais condições de estabelecer um vínculo sadio com seus alunos, utilizando a transferência para a evolução, não para a manipulação.

Pedagogia do Respeito: A Arquitetura da Autodisciplina

Uma educação verdadeiramente humanizada, que se alinha com a perspectiva psicanalítica, entende que a disciplina não é um fim em si, mas um subproduto do respeito e do engajamento. A disciplina é a ordem interna que o sujeito constrói para si mesmo, e não a ordem imposta que o sufoca.

1. O Professor como Modelo de Conduta e Competência

A autoridade se estabelece pela competência técnica e moral. O professor que domina o conteúdo, que é justo em suas avaliações e que demonstra integridade em suas ações, constrói uma autoridade inquestionável. Os alunos respeitam quem é capaz e coerente.

2. A Regra como Estrutura, Não como Castigo

As regras de convivência devem ser transparentes, justas e, sempre que possível, construídas em conjunto. Elas servem para proteger o ambiente de aprendizagem, e não para punir individualidades. O foco deve ser na consequência natural do ato (responsabilização), e não na punição arbitrária (vingança disfarçada).

  • Pergunta-chave: O que o meu aluno precisa aprender com esta situação? A resposta a esta pergunta muda o foco da punição para a aprendizagem e reparação.

3. Comunicação Efetiva e Empática

A disciplina sem autoritarismo exige uma comunicação que reconheça o afeto, mas que mantenha o limite. É preciso ser firme com o ato, mas gentil com a pessoa. A técnica de escuta ativa – que realmente ouve o que está por trás do mau comportamento (frustração, tédio, carência de atenção) – é fundamental para desarmar a resistência e construir a colaboração.

Fé, Razão e Inconsciente: O Propósito da Autoridade

A verdadeira autoridade na educação transcende o mero domínio de sala de aula. Ela toca o campo da transcendência e do sentido.

A razão nos auxilia a distinguir a lógica da regra da arbitrariedade do autoritarismo. A Psicanálise nos oferece a chave para compreender a força do inconsciente, que dita padrões e repetições na relação professor-aluno (transferência). A , por sua vez, nos lembra que todo o processo educativo deve estar orientado para um fim maior: a formação de um ser humano que, em sua autonomia e liberdade, seja capaz de amar, criar e encontrar o seu propósito. A autoridade, nesse sentido, é a força que guia a alma do aluno em direção à sua máxima potência, sem jamais quebrá-la ou subjugar a sua liberdade essencial. É a mão forte, mas amorosa, que oferece o limite para que o indivíduo se encontre e se desenvolva.


Chamada Final

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