O Impacto Silencioso da Ansiedade no Ambiente Escolar: Um Olhar Psicanalítico sobre a Mediação do Professor
outubro 6, 2025 | by Antonio & Emiliana
1. Introdução: O Fantasma Silencioso na Sala de Aula
A ansiedade é, hoje, uma das queixas mais frequentes nos consultórios de psicanálise e, infelizmente, também nos corredores e salas de aula das escolas. Não se trata apenas daquele friozinho na barriga antes de uma prova, mas de um estado constante de apreensão, medo e tensão que paralisa, impede a concentração e sabota o desempenho escolar.
Para professores, coordenadores pedagógicos e famílias, o desafio é imenso. Como identificar esse sofrimento que, muitas vezes, se disfarça de desinteresse, indisciplina ou, inversamente, de excesso de perfeccionismo?
Neste artigo, vamos mergulhar na compreensão da ansiedade escolar a partir da perspectiva da psicanálise na educação, buscando não apenas a identificação do problema, mas principalmente a iluminação do papel vital do professor como mediador desse sofrimento. Afinal, a escola não pode ser apenas um lugar de performance cognitiva; ela precisa ser, antes de tudo, um ambiente acolhedor e de desenvolvimento integral.
2. O Rosto Multifacetado da Ansiedade na Escola
A ansiedade, na visão psicanalítica, é um afeto que sinaliza a presença de um perigo interno ou externo, real ou fantasiado. No contexto escolar, esse “perigo” pode assumir diversas formas:
- Medo da Avaliação (O Censor Interno): A nota se torna a medida do valor pessoal. O aluno ansioso teme a falha não como um erro no aprendizado, mas como uma confirmação de sua insuficiência. O super-eu (instância psíquica responsável pela censura e ideal) é cruel e implacável.
- A Pressão da Performance (O Olhar do Outro): O desejo de corresponder às expectativas parentais e institucionais. O aluno se sente constantemente vigiado e avaliado, não apenas pelo professor, mas pelos colegas e, principalmente, pela imagem idealizada que os adultos projetam sobre ele.
- Ansiedade de Separação (O Vínculo Interrompido): Principalmente em crianças menores, a ansiedade pode emergir da dificuldade em se separar da figura parental. O corpo na escola está, mas a mente permanece em casa, numa busca constante por segurança.
Impactos práticos no cotidiano escolar:
| Dimensão | Manifestação da Ansiedade |
| Cognitiva | Dificuldade de concentração, “branco” nas provas, evitação de tarefas complexas. |
| Comportamental | Irritabilidade, isolamento, recusa em ir à escola, ou, o oposto, hiperatividade e busca incessante por aprovação. |
| Somática | Dores de cabeça, dores de barriga recorrentes, insônia, náuseas, tiques nervosos. |
3. Psicanálise na Educação: O Sofrimento como Linguagem
A Psicanálise nos ensina que o sintoma é uma formação de compromisso; uma tentativa (inadequada, mas necessária) do psiquismo de lidar com um conflito interno. A ansiedade do aluno é um sintoma, uma linguagem que precisa ser decifrada, não silenciada.
A tendência da escola, focada na produtividade e no currículo, é tratar o sintoma de forma comportamental: “Basta se concentrar”, “É só ter foco”, “Estude mais”. Essa abordagem, no entanto, ignora a raiz emocional e subjetiva do problema, aumentando a sensação de fracasso e aprofundando o sofrimento.
O fracasso escolar não é apenas uma nota baixa; é, muitas vezes, a ponta do iceberg de um sofrimento psíquico não verbalizado, que exige um olhar que escuta.
Reflexão para Educadores: Que fantasmas a escola está evocando em meus alunos? O que estou exigindo que, inconscientemente, os está desorganizando?
4. O Professor como Mediador: A Função de Holding e o Espaço Potencial
É aqui que o papel do professor se torna insubstituível e se eleva para além do mero transmissor de conteúdo. Inspirando-nos em conceitos psicanalíticos (especialmente Winnicott), o professor pode exercer uma função de holding (sustentação e amparo) no ambiente de sala de aula.
O holding não é mimar ou facilitar excessivamente a tarefa; é oferecer um ambiente previsível, confiável e seguro o suficiente para que o aluno se sinta à vontade para ser e para falhar.
Estratégias de Mediação Inspiradas na Psicanálise:
A. Escuta Sem Julgamento (O Olhar Ampliado):
O professor deve buscar o sentido por trás do comportamento. Se um aluno está apático ou agressivo, a pergunta não deve ser “Por que você está fazendo isso?”, mas sim, “O que pode estar te fazendo sentir assim?”. A escuta deve ser clínica no sentido pedagógico — ou seja, atenta ao sujeito que está ali, e não apenas ao aluno-função.
B. Gerenciamento da Demanda e do Prazo (A Quebra do Ideal de Perfeição):
A ansiedade cresce na rigidez. O professor pode flexibilizar a forma de avaliação e entrega, oferecendo múltiplas oportunidades e métodos (apresentações, projetos, provas orais), diminuindo a tirania da única prova. Isso comunica ao aluno que o processo de aprendizado é mais valioso que o produto final.
C. Criação de um Espaço Potencial (A Sala de Aula como Transição):
O psicanalista D.W. Winnicott fala sobre o espaço potencial, um local intermediário entre o interno e o externo, onde o brincar e a criatividade podem florescer. A sala de aula deve ser esse espaço: um lugar onde o erro não é punido, mas explorado; onde a experimentação é encorajada; e onde o vínculo afetivo entre professor e aluno serve como base de sustentação.
- Exemplo Prático: Ao perceber a ansiedade em um aluno, em vez de focar na correção do erro, o professor pode dizer: “Entendo que essa tarefa gerou muita tensão. Vamos olhar para o que te paralisou no início, não apenas para o resultado final. O que poderíamos tentar diferente da próxima vez?”. Isso tira o foco da punição e o coloca na reflexão sobre o processo.
5. O Diálogo Necessário: Escola e Família
A mediação do professor só será efetiva se houver uma ponte sólida com a família. Muitas vezes, a ansiedade dos pais (pela carreira, pela estabilidade financeira, pela performance social dos filhos) é introjetada pelo aluno e se manifesta como ansiedade escolar.
A escola, através da coordenação pedagógica, deve promover encontros e diálogos que ajudem as famílias a tirar o peso da exigência, ensinando-as a valorizar o esforço e a saúde emocional do filho acima da nota máxima.
A Psicanálise nos convida a olhar para as transferências — as repetições de padrões afetivos da primeira infância. Se a escola e a família se unem na exigência implacável, elas podem, inconscientemente, reeditar para o aluno o papel de um juiz interno cruel, reforçando a ansiedade. A parceria deve ser de cuidado e corresponsabilidade.
6. Conclusão: Cultivando um Ambiente de Vínculo e Aprendizado
A ansiedade escolar é um chamado. É a voz da subjetividade do aluno pedindo para ser vista e acolhida. O professor, armado não apenas de seu conhecimento didático, mas de uma sensibilidade psicanalítica (a capacidade de escutar o não-dito), tem a chave para transformar o ambiente escolar.
Ao oferecer um holding seguro, ao flexibilizar as exigências e ao valorizar o processo sobre a performance, a escola deixa de ser o palco da angústia e se torna o laboratório da descoberta e da criatividade.
A saúde mental na escola não é um projeto à parte, mas a base de todo o projeto educativo. É o solo fértil que permite ao aluno enfrentar seus medos e desenvolver seu potencial, sabendo que, mesmo no erro, haverá um adulto ali para sustentar seu processo. Este é o desafio de toda educação que se pretende humana e transformadora.
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