Os Sete Mitos da Educação
setembro 28, 2025 | by Antonio & Emiliana
O que Precisamos Repensar Urgentemente
Na busca por transformar a escola em um espaço mais dinâmico e adaptado às novas demandas da sociedade, diversas ideias passaram a circular como “verdades” incontestáveis sobre o ensino e a aprendizagem. Entretanto, nem todas essas ideias resistem ao escrutínio da pesquisa científica ou da prática docente.
A pesquisadora britânica Daisy Christodoulou, em seu livro Seven Myths About Education (2014), reúne aquilo que chama de “sete mitos” que dominaram o discurso pedagógico contemporâneo e que, na prática, têm prejudicado a formação dos estudantes.
A seguir, apresento esses mitos e algumas reflexões críticas sobre como eles afetam nossa realidade educacional.
1. O mito de que “fatos impedem a compreensão”
Segundo esse mito, ensinar conteúdos factuais seria algo “ultrapassado”, porque a verdadeira compreensão viria apenas das habilidades de pensar criticamente.
👉 O problema é que não há pensamento crítico sem base de conhecimento. Para interpretar, analisar ou avaliar qualquer questão, o aluno precisa ter repertório. Como diria E.D. Hirsch Jr., “você não pode ter habilidades sem conhecimento”.
2. O mito de que “as habilidades podem ser ensinadas isoladamente”
Muitos currículos enfatizam o ensino de competências genéricas, como “aprender a aprender”, mas descoladas de um corpo sólido de saberes.
👉 A neurociência e a psicologia cognitiva mostram que o pensamento é sempre dependente de um domínio específico de conhecimento. Não existe pensamento crítico abstrato: só é possível pensar criticamente sobre aquilo que se conhece.
3. O mito de que “o ensino tradicional é passivo”
Frequentemente contrapõe-se o ensino “tradicional” (aula expositiva, memorização, exercícios) ao ensino “ativo”.
👉 Mas isso é uma caricatura. O ensino direto pode ser extremamente ativo, quando envolve questionamentos, exemplos, prática guiada e feedback constante. A passividade não está na metodologia, mas na falta de propósito.
4. O mito de que “o professor deve ser um guia, não um sábio”
Difundiu-se a ideia de que o professor deve apenas facilitar, e não transmitir conhecimento.
👉 Na realidade, a figura do professor como curador do saber continua sendo essencial. O aluno pode (e deve) participar ativamente do processo, mas precisa da expertise docente para organizar, sequenciar e explicar conceitos complexos.
5. O mito de que “aprender sobre o passado não é relevante para o presente”
Na ânsia de “preparar para o futuro”, muitos defendem que a escola deve abandonar conteúdos históricos, literários ou clássicos.
👉 O risco é criar uma geração sem referências culturais, incapaz de compreender textos complexos ou de participar plenamente da vida cidadã. A cultura acumulada é o terreno sobre o qual se constrói a inovação.
6. O mito de que “você deve sempre ensinar de acordo com o estilo de aprendizagem do aluno”
A ideia de que cada aluno aprende melhor de um jeito (visual, auditivo, cinestésico) é muito popular, mas não tem respaldo científico.
👉 Pesquisas mostram que o que realmente importa é o conteúdo e a qualidade da instrução, não adaptar-se a supostos estilos. O foco deve estar em múltiplas formas de representação e prática, não em rótulos fixos.
7. O mito de que “o currículo é apenas uma lista de conteúdos”
Para alguns, planejar o currículo é simplesmente listar tópicos.
👉 Porém, um currículo eficaz é uma sequência planejada e cumulativa, que garante que cada etapa prepare o terreno para a seguinte. Sem isso, o ensino se torna fragmentado e desigual.
Conclusão
Os “sete mitos” apresentados por Daisy Christodoulou funcionam como um alerta poderoso: boas intenções pedagógicas nem sempre produzem bons resultados. Se quisermos realmente formar estudantes críticos, criativos e preparados para o futuro, precisamos resgatar a importância do conhecimento sólido, da autoridade do professor e de um currículo estruturado.
No Brasil, onde as defasagens de leitura, escrita e matemática são tão graves, insistir nesses mitos pode significar aprofundar desigualdades. O caminho para uma educação transformadora não passa por slogans vazios, mas por práticas baseadas em evidências e pela valorização do papel central do professor.
Referencia:
CHRISTODOULOU, Daisy. Seven Myths About Education. London: Routledge, 2014.
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